sexta-feira, 15 de maio de 2009

Um fantasma ronda o Brasil

Extraído de http://www.blogger.com/post-edit.g?blogID=6245282761430919277&postID=7488911830345170572

Um fantasma ronda o Brasil, o fantasma da Lista Fechada. Sei lá o que Marx diria desse abuso, dessa paródia de sua célebre introdução ao Manifesto, mas o fato é que esse fantasma, muito mal comparando, está incomodando e muito, a muitos brasileiros sinceramente preocupados com nosso país. O fantasma que rondava a Europa se esfumaçou, mas deixou aqui um borralho que parecia calmaria, e não é: é rescaldo mesmo.

Começo pelo princípio: o que será que levou esse Congresso, tão completamente desligado do Brasil real, a entrar nessa agitação, nessa ânsia por uma Reforma Política até agora enfiada num dos mais encafurnados escaninhos de sua memória? O que foi que provocou essa espécie de vírus, um tipo de catapora, uma dança de São Guido, que não quer deixar Suas Nobrezas quietinhas como estiveram nos últimos anos?

Será medo de perder o troféu, o galardão de Deputado Federal, o assento no Paraíso Senatorial? Ou estou sendo absolutamente injusta e eles estão horrorizados com os escândalos que pipocam por todo o Brasil, de Brasília aos Palácios dos Governos Estaduais e desses às Prefeituras e Câmaras de Vereadores de todas as Sucupiras da nação?

Lembro de um tempo em que éramos gratos aos servidores públicos petistas por nos manterem a par das traquinadas de então. O que o PT esqueceu, ou prefere esquecer que existe, são os funcionários públicos que aprenderam com o PT a se indignar com o erro e só mudaram de camisa. Vermelha com estrelinha, nunca mais. Mas alertar o país, sempre!

E a Lista Fechada, perigo dos perigos, acendeu entre eles o Alerta, esse sim bem vermelho. Alguém tem dúvida de quem seriam os escolhidos para figurar nas listas, em todos os partidos? O que nos leva a acreditar, por um segundo sequer, que uma lista dessas seria feita pensando no Estado a ser representado e no País? Não tenho dúvidas: as bailarinas, os cabeleiras, os turistas, os mensalinhos e mensaleiros, os suplentes, os afastados pelo eleitor de ontem, esses iriam compor as listas. E os caciques, claro, que deles é a força...

Não podemos continuar como estamos? O proporcional não deu certo? Claro que não, esgotou-se à medida que o país cresceu. Não funciona mais. Precisamos de um modo que seja verdadeiramente representativo, que o cidadão conheça em quem vai votar e tenha acesso direto a seu representante.

Nada pode ser pior do que essa lista montada nos gabinetes. Nós não temos nem partidos nem nomes para que seja esse o modelo de voto ideal para o Brasil. E sinto um cheiro de enxofre no ar ao ver o Governo Federal apoiar a Lista Fechada. Vai ver é impressão, é porque andei lendo sobre o bolivariano, mas que o cheiro paira no ar, paira.

Cada um de nós deve formar sua opinião e não é esta articulista quem vai ter a arrogância de achar que vai influir na opinião de algum leitor. Ficaria feliz, isso sim, se colaborasse para que alguns, ou se possível, quase todos, parassem um instante para pensar nesse tema tão importante para nós.

Não sou cientista política, profissão que sempre me pareceu, assim como economista e psicanalista, um meio caminho entre a realidade e o que gostaríamos que fosse, entre e verdade e a fantasia. Sempre digo e repito: os sapateiros devem se ater aos seus sapatos e eu fico aqui, fazendo sapatinhos. Mas gostaria de respostas simples a perguntas também simples:

Por que esse tema brotou com tanta intensidade logo agora?

Qual a dificuldade em fazer como a grande maioria dos países e adotar o voto distrital?

Ou fazer como na Alemanha e adotar o voto distrital misto?

Por que temos sempre que ser a vanguarda do atraso?

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Desde quando legalidade e moralidade são sinônimos?

Extraído de: http://cora.blogspot.com/2009/04/bando-de-trairas-irresponsaveis.html

Na entrevista que deu à Veja esta semana, Michel Temer, a excelência mor, disse que, no Congresso Nacional, há “confusão entre o que se pode fazer e o que não se pode fazer”; disse ainda que “há falhas no controle”, e que “os erros de poucos não podem contaminar a instituição”. Como contribuinte às voltas com o assalto do imposto de renda, de um lado, e, do outro, o noticiário simplesmente obsceno da política, tive que respirar fundo e contar até dez -- várias vezes -- para não ter um ataque de fúria. Não basta ter cara de pau para dizer isso; é preciso também subestimar, em altíssimo grau, a inteligência dos leitores. Prevarique, excelência, já que ninguém lhe disse que prevaricar não se pode fazer, mas, por favor, não me chame de burra!


Qualquer criança razoavelmente educada sabe, muito bem, o que pode e o que não pode fazer. Vai me dizer agora que um bando de marmanjos não sabe?! O fato de não existir regulamentação proibindo congressistas safados de levarem a família de férias às custas do contribuinte não significa, em absoluto, que qualquer congressista safado esteja automaticamente autorizado a fazê-lo. É mais do que evidente, para qualquer pessoa com um mínimo de dignidade e de boa fé, que verbas públicas não podem ser usadas para fins privados. Qual é a regra que está faltando para que a politicalha entenda isso?

Em que mundo levitam as excelências que não percebem que os seus gastos nababescos custam o suor de brasileiros que trabalham de verdade? Em que mundo vivem as excelências que acham normal que seus filhinhos mimados torrem dezenas de salários mínimos em conta de celular, só assim? Em que mundo vivem as excelências que, não contentes em alugar jatinhos às nossas custas, ainda têm a petulância de posar como partes ofendidas?! Em que mundo, afinal, se homiziam essas excelências que, pegas em flagrante, reagem afirmando que “faltam regras claras”?! Ora, o que falta, excelências, é apreço à democracia, é amor pelo país, é compaixão pelo povo que trabalha de sol a sol e não tem escola, não tem hospital, não tem nada. O que falta é vergonha na cara.

* * *

Pior do que a roubalheira interminável que assistimos, se é que pode haver algo pior, é o seu leque malsão de efeitos colaterais. Eles podem ser ouvidos em qualquer lugar, nos cabeleireiros, nos ônibus, nos botecos, nos escritórios; eles podem ser lidos nas seções de cartas de leitores e na internet, das caixas postais que rosnam com abaixo-assinados e textos indignados aos blogs e caixas de comentários do noticiário. O mais deletério à nossa auto-estima é o argumento, repetido à exaustão, de que o congresso é a cara do país, e que a canalha que lá está nos representa à perfeição.

Não é verdade. O Brasil é muito melhor do que os seus políticos. Olhem ao seu redor, na sua casa, entre os seus amigos e conhecidos: a maioria dos brasileiros é gente correta e batalhadora, ocupada em ganhar a vida. Essa maioria só sai no jornal como vítima: de assalto, atropelamento, bala perdida, burocracia, erro médico. A questão é que a política anda tão nojenta, mas tão nojenta, que causa repulsa às pessoas decentes.

Outro péssimo efeito colateral da safadeza generalizada é a idéia de que não sabemos votar, e que não fizemos direito o nosso dever nas eleições: afinal, a maioria dos políticos está na vida pública graças aos votos dos seus eleitores. O problema é que só se pode votar bem quando há opções que permitam fazê-lo. E, pelo visto, não há opções.

* * *

O efeito mais perigoso de todos, porém, é que mais e mais se ouvem pessoas a favor do fechamento do Congresso: se ainda não perceberam, conversem um pouco na rua, leiam os fóruns na internet, prestem atenção. Vocês vão ver como esse sentimento se generaliza (sem trocadilho!). Não se pode nem falar em saudades da ditadura. Muitos jovens que nem eram nascidos naqueles maus tempos não entendem para que o país precisa de um legislativo que custa tão caro, dá tão mau exemplo e só legisla em causa própria. Do jeito que as coisas vão, está cada vez mais difícil defender o Congresso e, consequentemente, a democracia.

É isso, sobretudo, que não devemos, nem podemos, perdoar a essa corja de traíras irresponsáveis. O Congresso não é a casa da mãe Joana, nem pertence aos camatas e sarneys da vida; ele pertence a todos nós, e o seu funcionamento, em plena liberdade, foi conseguido com muito sacrifício para ser, agora, tornado irrelevante em troca de seis dinheiros.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Delírios (extraído de http://www.deolhonacapital.com.br)

Acho que o governador de Santa Catarina perdeu completamente a noção do perigo. Acredito que os últimos movimentos do LHS deixaram os auxiliares mais sensatos de cabelos em pé. Não é possível que alguém pretenda que uma seqüência tão espetacular de eventos, no mínimo, insólitos ocorra por acaso. Numa caprichosa coincidência engendrada pelo Universo, esse brincalhão.

E, se foi um encadeamento planejado, demonstra o estado de completo delírio em que se encontra o chefe de estado (o chefe de governo é o grupo gestor).

Em pleno carnaval materializa-se, diante dos olhos atônitos dos telespectadores sonolentos, um mágico marroquino, uniformizado com camiseta governamental. Foram buscar, pra lá de Marraquesh, alguém capaz não só de fazer sumir dinheiro (habilidade que fez enorme falta ao ex-presidente da Fatma e ao ex-servidor da Secretaria da Fazenda, Aldinho Hey Neto), mas, principalmente, de fazer desaparecer no ar, numa nuvem de fumaça colorida, os processos, as provas e demais papéis que têm causado tantos dissabores ao LHS.

Não satisfeito, LHS empenha mais uma vez dinheiro público para realizar um super-hiper-mega festival internacional de mágica na ilha… da magia. Franklin Cascaes revira-se no túmulo e as bruxas, agitadas com tamanha desfaçatez dão razantes, tentando fazer com que o pessoal acorde e perceba onde está se metendo.

Logo em seguida, LHS reune o secretariado para tratar do WTTC, um super-mega-hiper evento que colocará Florianópolis e suas praias de águas limpas, no centro da atenção mundial, já agora, em meados de 2009, quando o aeroporto da capital já terá colocado em funcionamento uma salinha adicional de embarque, obtida graças ao fechamento da sala reservada aos clientes vips da TAM.

Estão inclusive negociando que todos os convidados especiais (entre os quais dezenas de alegres jornalistas de coquetel que virão às expensas do nosso rico dinheirinho) cheguem ao aeroporto antes da meia-noite. É que depois não há taxis (a turma dorme cedo e a prefeitura não tem controle sobre eles). Ah, claro, convidados do LHS não precisam de taxis, usam ônibus e vans fretados, mas em todo caso é bom não arriscar.

LHS então emenda reunião para reforçar as providências para instalação da filial da escola francesa de administração, reafirmando o fim do instituto do concurso público para servidores públicos. Garante, com isso, uma reserva de mercado para a filial. E joga uma pá de cal na Esag e demais escolas de administração que foram construídas ao longo dos anos em Santa Catarina.

Tudo isso aconteceu com poucas horas de diferença entre uma reunião e outra. Não tiveram tempo, os nefelibatas que nos governam, de tratar de miudezas. Parece que acreditam mesmo no poder da mágica: shazam! e os hospitais públicos tornam-se centros de saúde e deixam de ser locais de humilhação, sofrimento e desesperança. Hocus-pocus! e as baías, mangues e outras águas litorâneas, deixam de ser repositório de excrementos, metais pesados e todo tipo de porcaria. Alacazam! e os contribuintes/eleitores conseguem movimentar-se rápida e facilmente nas cidades, em sistemas de transporte coletivo público que entre outros confortos, tem ar condicionado.

Depois o louco sou eu.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

A corrupção nossa de cada dia (extraído de www.vieirao.com.br)

A corrupção está tão arraigada no cotidiano do país, que ninguém se surpreendeu com a declaração do senador Jarbas Vasconcellos, de que o PMDB é corrupto.
A supresa foi menor ainda quando outro senador, Pedro Simon, comentando as declarações do colega na Tribuna do Senado, ponderou que o PMDB é tão corrupto quanto o PSDB e o PT.
Ambos falaram o óbvio, aquilo que os brasileiros sabem por experiência, prática, intuição e constatação: vivemos numa época dominada pela corrupção.
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Não lembro se foi o David Nasser ou o Fernando Morais quem contou. Enfim, é uma anedota esclarecedora da faceta corrupta da alma tupiniquim.
Em 1955, Adhemar de Barros era candidato a presidente da República e visitava o Rio de Janeiro nessa condição. Instalado no Copacabana Palace, preparava-se para uma coletiva.
Enquanto os jornalistas se acomodavam, o ex-governador paulista se dirigiu até uma dúzia de jovens impecavelmente vestidos, agrupados num canto da sala.
Eram formandos do curso de Direito de uma tradicional faculdade carioca. Estavam ali para formalizar convite para que o candidato fosse o paraninfo da turma.
O homem do "rouba, mas faz" sabia que o alvo dos formandos era seu bolso, para bancar as festanças da formatura.
Braços abertos, a boca escancarada pelo riso, Adhemar saudou-os assim:
- Meus corruptozinhos!
Todos caíram na gargalhada.
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Não importa a cidade, o perfil econômico dos moradores, a corrupção campeia porque ou somos corruptos, ou lenientes com a corrupção.
Vejam o caso de Lebon Régis.
O presidente da Câmara de Vereadores desse município encravado no coração do Planalto catarinense, no período 2004/05, foi condenado pelo Tribunal de Contas ao pagamento de R$ 6.930,00 relativos à despesas com diárias de viagens não comprovadas.
Candidato a reeleição em 2008, não se reelegeu, mas obteve a segunda maior votação no seu partido. É o primeiro suplente.
Ele declarou ao TRE despesa total de campanha de R$ 122,50, gastos integralmente com combustíveis, presumivelmente utilizados no único bem declarado à Justiça Eleitoral, uma Blazer movida a diesel.
Gastou um tanque de combustível e quase se reelegeu!
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Outro caso do Planalto catarina.
O Tribunal de Contas decidiu converter em tomada de contas especial uma auditoria realizada na Secretaria Regional de Lages, na época comandada pelo atual deputado estadual, Eliseu Matos:
falta de comprovação da execução dos serviços contratados em razão da ausência de relatórios detalhados, ausência de identificação, qualificação e assinatura do autor dos relatórios;
datação indevida da liquidação das notas fiscais ns. 04,05, 10, 11, 16 e 17;
Dispensa de Licitação n. 004/05, Contrato de Prestação de Serviço n. 016/05 e seu Termo Aditivo, no valor de R$ 351.500,00;
inadequada contratação de serviços tipicamente estatais, por dispensa de licitação, com valor total de contrato e termo aditivo de R$ 639.500,00, serviços esses que deveriam ser realizados pela Administração Pública Estadual, através da Fundação do Meio Ambiente - FATMA;
ausência da comprovação de existência de projeto básico e projeto executivo que detalhassem os serviços a serem prestados e seus custos unitários;
Entre outros.
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Os corruptos, já escrevi isso, são os heróis da nossa gente.

Segurança privada na Sapucaí (Sambódromo - Rio) é feita por 300 PMs, entre os quais 60 oficiais (Fonte: http://oglobo.globo.com/carnaval2009/rio/mat/2009/02/21)

A segurança privada dos desfiles de carnaval é feita por 300 policiais militares contratados pela Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), entidade que tem como conselheiros integrantes da cúpula da contravenção no Rio, mostra reportagem de Sérgio Ramalho publicada na edição deste domingo (Carnaval 2009) do jornal O GLOBO. Na tropa da segurança privada da Liga, há pelo menos 60 oficiais da ativa da PM - de tenentes a coronéis -, dos quais cinco no mínimo atuam no comando de unidades, em postos estratégicos, com funções como recrutamento e seleção de pessoal, e até no gabinete do comandante-geral da corporação, coronel Gilson Pitta.

Arregimentados pelo coordenador de segurança da Liga, coronel da reserva da PM Celso Pereira de Oliveira, de 61 anos, oficiais recebem diárias que variam de R$ 350 a R$ 850 para atuar no esquema de segurança da Passarela do Samba. Classificado no estatuto da PM como transgressão disciplinar, o "bico" dos oficiais e praças para os dias de desfiles de carnaval da Liesa é pago pela empresa MJC Eventos e Serviços, através de Recibo de Pagamento de Autônomo (RPA). A empresa figura no cadastro da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro (Jucerj) em nome das filhas do coronel Celso.

A participação de PMs, principalmente oficiais graduados, na segurança privada da Passarela do Samba gera controvérsia na cúpula da PM. No Batalhão de Operações Especiais, o "bico" para a Liesa é punido com o desligamento dos policiais. Há quatro anos, o então comandante do Batalhão de Choque, coronel Romilton Corrêa, prendeu um tenente da unidade que estava arregimentando oficiais para trabalhar na avenida. O tenente ficou detido administrativamente por 30 dias. Na nota de culpa, o coronel justificou a prisão informando que o tenente havia sido flagrado trabalhando para a contravenção.

A quantia paga pela MJC Eventos através de RPA a coronéis e tenentes-coronéis representaria, ao fim de cinco noites de desfiles, incluindo apresentações das escolas mirins (sexta-feira), Grupo de Acesso (sábado), Grupo Especial (domingo e segunda-feira) e Desfile das Campeãs (sábado), um reforço de R$ 4.250 na renda dos oficiais. A remuneração média mensal de um tenente-coronel é de R$ 4.700, sem contar gratificações.

O sociólogo e ex-subsecretário de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares, afirma que não há como cobrar dedicação exclusiva dos policiais às corporações com os salários pagos atualmente

- É por esse motivo que superiores na hierarquia das polícias e autoridades dos governos fingem que não veem os policiais fazendo "bico". Para mudar esse quadro é preciso encarar a realidade do orçamento da segurança pública, que não suporta pagar aumentos dignos aos policiais- afirma Luiz Eduardo.


Em 8 anos, patrimônio dos membros das Mesas da Câmara e do Senado cresceu até 207% (Fonte: http://oglobo.globo.com/pais/mat/2009/02/21)

A análise das declarações de bens dos 11 deputados e 11 senadores das Mesas Diretoras da Câmara e do Senado entre 1998 e 2008 mostra que eles tiveram crescimento significativo do patrimônio - chegando a 207%, no caso do deputado . Ao todo, sete parlamentares tiveram variação patrimonial superior a 50%, de acordo com os dados entregues aos tribunais regionais eleitorais. É o que mostra reportagem de Leila Suwwan e Maiá Menezes na edição deste domingo em O GLOBO. Edmar Moreira, afastado da 2ª vice-presidência da Câmara após a descoberta de que tinha um castelo de mais de R$ 20 milhões, e expulso do DEM por suspeita de sonegar o castelo em suas declarações, teve crescimento patrimonial de 28%.

Giovanni Queiroz (PDT-PA), suplente da Mesa, alcançou 207% de aumento - de R$ 2.381.967, em 1998, para R$ 7.319.000, em 2006. O valor é superior aos 138,7% de inflação acumulada, de acordo com o Índice Geral de Preços do Mercado (IGPM), da Fundação Getulio Vargas. É esse indicador que corrige os valores no mercado de imóveis. Entre os bens que adquiriu estão 2.700 cabeças de gado, no valor de R$ 900 mil. O valor de uma de suas fazendas, entre os municípios de Rio Maria e Pau D'Arco (PA), passou de R$ 555 mil para R$ 4,5 milhões.

O maior patrimônio na Mesa da Câmara é o de Giovanni Queiroz, e o menor, de Odair Cunha (PT-MG), com R$ 140.966. Em 2002, Odair declarara ter apenas um Fiat Uno. O deputado ACM Neto (DEM-BA), substituto de Edmar na 2ª vice, registrou um crescimento de 110% no patrimônio - passou de R$ 38.277 para R$ 820.561, de 2002 a 2008.

Patrimônio de Sarney variou 100%

Entre os integrantes da Mesa do Senado, o maior patrimônio declarado é o do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP) - R$ 4,6 milhões. Em sua declaração de 1998, o senador tinha R$ 2,3 milhões, dos quais 63% eram referentes à fazenda Pericumã, em Luziânia (GO). Em aplicações financeiras, guardava R$ 375 mil. Em sua declaração de 2006, há uma forte mudança no perfil patrimonial, além da duplicação de seu valor. Passou a guardar em contas e investimentos bancários 64% de seus bens, R$ 2,9 milhões - inclusive R$ 297 mil em espécie. Na Mesa da Casa, o menor patrimônio, em 2006, era o de Serys Slhessarenko (PT-MT) - R$ 202.883,40.

A maior variação percentual, na comparação entre as últimas declarações apresentadas ao TRE, foi a do senador Mão Santa (PMDB-PI), de 115%. Na declaração de 2002, ele dizia ter R$ 168.427. O valor passou para R$ 362.558 em 2006. A assessoria do senador informou que a variação ocorreu por causa da compra de um apartamento financiado. Os dados do TRE do Piauí indicam ainda que o senador Heráclito Fortes (DEM) apresentou um aumento de patrimônio de 57,64% - de R$ 825.706, em 2002, para R$ 1.301.6745, em 2006. Segundo a assessoria de Heráclito, o crescimento do percentual se deu, provavelmente, pela "correção dos bens e por investimentos".

O deputado Inocêncio Oliveira (PR-PE) teve crescimento patrimonial de 24%, entre 2002 e 2006 - de R$ 5.044.967 para R$ 6.291.778. Segundo as declarações prestadas à Justiça Eleitoral, o que mudou foi o valor atribuído a dois apartamentos, em Recife. Já o senador Marconi Perillo (PSDB-GO) teve aumento patrimonial de 33% entre 2002 e 2004, passando de R$ 562 mil para R$ 748 mil - a diferença se refere à compra, por R$ 205 mil, de sua casa, no Residencial Alphaville Flamboyant.

Variação semelhante aos 206% de Giovanni Queiroz teve o deputado Ilderley Souza (DEM-AC), que concorreu à quarta suplência - foi derrotado. Entre 2006 e 2008 (quando foi candidato a prefeito de Cruzeiro do Sul , no Acre), passou de R$ 1.745.000 para R$ 5.350.000 (206%). Ilderley disse que aumentou o valor atribuído aos imóveis em sua última declaração para "valorizar o patrimônio". De 2006 a 2008, o IGPM foi de 22,86%.

'Não tenho nada a esconder'

Com crescimento de 207% e o maior patrimônio declarado em 2006, Giovanni Queiroz argumenta que um empréstimo para um investimento em reflorestamento da madeira asiática Teca, em suas terras, valorizou seu patrimônio:

- Fiz um financiamento de R$ 3 milhões no Banco da Amazônia, tenho nove anos de carência e outros sete para pagar. É para o reflorestamento de Teca, uma madeira nobre. Esse é o motivo da valorização dessa fazenda, que tenho desde 1972. O rebanho, eu até reduzi. Minhas contas, podem abrir amanhã, não tenho nada a esconder.A comparação entre as declarações de bens do parlamentar mostra que tanto o valor como a identificação da fazenda mudaram. Em 1998 era listada a Mognoporã, de 1,8 mil hectares, em Rio Maria. Em 2006, ela é listada como Fazenda Agropecuária Pau D'Arco. Sua outra fazenda, com 4,3 mil hectares, fica em Conceição do Araguaia (PA), perto da divisa com Tocantins, e se manteve com valor estável: passou de R$ 1,25 milhões para R$ 1,3 milhões em nove anos.

O deputado Ilderlei Souza (DEM-AC), cujo patrimônio variou 206% em dois anos, sustenta que seus bens continuam os mesmos. Já a avaliação mudou:

- Eu valorizo todo ano meu patrimônio.

A assessoria do senador Heráclito Fortes afirma que os investimentos ajudam a explicar o aumento de seu patrimônio.


domingo, 11 de janeiro de 2009

Seremos "brancos" ou "negros"? Ou brasileiros?

Artigo de Demétrio Magnoli - extraído http://oglobo.globo.com/pais/noblat/

Começa o outono de Lula

"No fim de seu segundo mandato, seremos ‘brancos’ ou
‘negros’ antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira
mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de
efeito retardado que sua passagem pela Presidência
deixa aos filhos e netos da atual geração"

Sergio Moraes/Reuters

SALVACIONISMOLula em discurso: ele não enxerga nada de positivo antes de seu próprio advento

Lula chegou ao Palácio do Planalto como a personificação de esperanças exageradas, quase ilimitadas: "Foi para isso que o povo brasileiro me elegeu presidente da República: para mudar".

Na hora em que começa o outono de seu segundo mandato, contudo, é tempo de investigar a sua herança: desses oito anos, o que ficará incrustado no edifício político brasileiro?

"Eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta." Antes de tudo, provou-se que diplomas acadêmicos não são adereços indispensáveis para governar. Os acertos e os erros de Lula decorrem de suas opções políticas, não das supostas virtudes ou das óbvias carências associadas a um nível baixo de instrução formal.

O presidente não precisou de uma universidade para preencher a diretoria do Banco Central com um time de economistas que ostenta medalhas acadêmicas incontáveis – e concepções opostas às doutrinas econômicas petistas.

Bastou-lhe o faro político privilegiado do conservador que, no fundo, nunca deixou de ser. Inversamente, o elogio da ignorância, um traço ubíquo dos pronunciamentos presidenciais, não reflete uma suposta convicção de que a escola é desnecessária, mas o egocentrismo exacerbado de um líder salvacionista.

"Nunca antes neste país." O salvacionismo abomina a história, apresentando-se como o início de tudo: a virtude que exclui o vício e escreve uma nova história num mármore intocado.

A democracia enxerga a si mesma como um processo de mudanças incrementais. O líder salvacionista não enxerga nada de positivo antes de seu próprio advento. Lula é uma versão pragmática, cuidadosa e mesquinha de salvacionismo.

De dia, ele denuncia "a elite que nos governa há 500 anos". À noite, cerca-se de grandes empresários, a quem atende e de quem espera retribuição. O sucesso do estilo político salvacionista deriva das fraquezas de nossa democracia – e as perpetua.

"Não se enganem, mesmo sendo presidente de todos, eu continuarei fazendo o que faz uma mãe: cuidarei primeiro daqueles mais necessitados, daqueles mais fragilizados." Lula não inventou o paralelo entre a nação e a família, que faz parte da longa linhagem do pensamento conservador de raiz autoritária. Mas, com a expansão do Bolsa Família, ele encontrou uma fórmula de modernização do assistencialismo tradicional.

A distribuição direta de dinheiro, no lugar das proverbiais dentaduras, não é a fonte do aumento do consumo dos pobres, que reflete o crescimento da economia em geral e do salário mínimo em particular. Pouco importa: em virtude de sua eficácia eleitoral, o Bolsa Família será adotado pelos próximos governantes, sejam quem forem. Eis um legado duradouro da "mãe do povo".

"Não tem Congresso Nacional, não tem Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar o lugar de destaque que ele nunca deveria ter deixado de ocupar." O lulismo aprofundou a subserviência do Parlamento ao Executivo, que se manifesta sob a forma de um intercâmbio: o Congresso se anula politicamente enquanto os congressistas da base do governo chantageiam o presidente para conseguir cargos e favores.

A troca descamba sem dificuldades para a corrupção aberta. O "mensalão" foi isto: um projeto de estabilização da base governista pela compra direta dos parlamentares.

Ele acabou exposto, mas apenas em virtude de uma fortuita ruptura interna à ordem da corrupção. Lula não caiu, apesar de tudo, e a oposição nem sequer apresentou um processo de impeachment. A elite política aprendeu do episódio que um presidente popular não será punido nem mesmo se distribuir dinheiro a parlamentares.

"Se tem uma coisa que está dando certo no governo é a política econômica. O PT não pode se esconder, procurando motivos para as derrotas, com críticas a ela." O PT morreu como partido da mudança antes da vitória eleitoral de Lula, com a Carta ao Povo Brasileiro, que o converteu em partido da ordem. Nos partidos social-democratas europeus, transições similares verificaram-se antes e de modo diferente.

Eles renunciaram publicamente a seus velhos programas revolucionários, adotando programas fundados nos cânones da democracia e da economia de mercado. O PT, não: embora, na prática, sustente a ortodoxia econômica do governo Lula, suas resoluções clamam pela ruptura socialista, denunciam a liberdade de imprensa e fazem o elogio da ditadura de partido único cubana.

A cisão entre o gesto e a palavra não apenas corrompe politicamente o partido como também alimenta um tipo mais virulento de corrupção.

Dida Sampaio/AE

MÁQUINA CLANDESTINA O operador do mensalão Delúbio Soares: o PT não consegue estabelecer distinções entre as instituições públicas e o partido


"Se eu falhar, será o fracasso da classe trabalhadora." Uma máquina clandestina petista, instalada dentro do Planalto, conduziu as operações do "mensalão". Militantes partidários em altos cargos públicos realizaram a quebra de sigilo do caseiro Francenildo, um crime de estado que passará impune.

Se acreditamos que temos a chave do futuro e uma missão histórica redentora, não hesitamos em usar de qualquer expediente para realizar as finalidades partidárias.

O PT não consegue estabelecer distinções entre as instituições públicas e o partido. No fundo, interpreta a democracia como instrumento transitório para a sua perpetuação no poder. Depois de Lula, o maior partido brasileiro continuará a figurar como elemento de distúrbio no sistema político.

"Quem chega a Windhoek não parece que está em um país africano. Poucas cidades no mundo são tão limpas." Os estereótipos raciais clássicos, afundados na lagoa do senso comum, são um componente óbvio da rasa visão de mundo de Lula.

Entretanto, o programa de racialização da sociedade brasileira conduzido por seu governo decorre de um frio cálculo político. O presidente quer conservar na sua ampla coalizão as ONGs racialistas, financiadas pela poderosa Fundação Ford.

Em nome dessa meta, patrocina uma enxurrada de leis raciais com repercussões na educação, no mercado de trabalho e no funcionalismo público.

No fim de seu segundo mandato, todos os direitos dos cidadãos estarão mediados e condicionados por rótulos oficiais de raça.

Seremos "brancos" ou "negros" antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de efeito retardado que sua passagem pela Presidência deixa aos filhos e netos da atual geração.